Outra atividade do último semestre foi solicitada pelo professor de Linguística. A partir de um trecho de livro que nos fizesse lembrar de algum acontecimento da infância, deveríamos escrever um texto que contasse nossas reminiscências. Escrevi o texto Trapezista, que pode ser lido a seguir.
Já fazia tempo que o menino trocara os carrinhos de madeira, o canudo de mamão, que usava para fazer bolinhas de sabão no ar, as bolinhas de mamona, que usava para brincar de guerra, a bola feita com as meias de seda da mãe, o gosto de falar sobre Fords e Chevrolets, a mania de duplicar lagartixas pelo quintal, mumificar formigas com vela acesa, caçar mosca com copo, apagar a cor das asas das borboletas, arrastar-se em meio aos agapantos do jardim imitando caracol, para uma brincadeira concentrada, que muito desagradava à mãe. Essa de ficar cantarolando pelos lugares. (STAUT, Alexandre. Jazz Band na Sala da Gente. São Paulo: Toada Edições, 2010, p. 23)
TRAPEZISTA
Dor. Era tudo o que eu sentia naquele momento. Minhas costas ficaram vermelhas, ardiam muito! A única coisa que eu ouvia era: “Vou contar tudo para sua mãe, e ela vai bater em você”. Eu respondia: “Não, não conta, por favor! Estou com dor; se eu apanhar, vai doer mais!”.
Eu deveria ter pensado nisso antes. Mas quem disse que uma criança de seis anos, que sonha em ser artista, que pula sem parar pela casa, que é ativa e gosta de aventuras (mesmo que estas se restrinjam ao quintal de sua casa e dependam mais da sua imaginação que dos recursos disponíveis) vai pensar que alguma coisa divertida pode ser prejudicial a ela antes que aconteça?
Uma certa emissora de televisão exibia uma novela em que a personagem do ator Marcos Frota era trapezista de circo. Eu, inclusive, já havia assistido a vários espetáculos de artistas do segmento no Circo Garcia. Eu os via e sonhava em, um dia, voar por cima do público como eles faziam. Não, não era meu desejo ser artista circense. Eu queria ser atriz, tinha certeza disso. Porém desejava atuar em um filme em que eu pudesse interpretar uma profissional do trapézio. Eu já via os flashes das câmeras, os olhares apreensivos dos espectadores e ouvia as palmas ao final do espetáculo. Mas precisava treinar, suar a camisa, aprender a verdadeira arte do trapézio. Eu estava mais do que pronta para aquilo (era o que eu achava).
Minha mãe, naquele dia, saiu para resolver umas coisas e deixou a moça que trabalhava na nossa casa cuidando de mim e do meu irmão. Estávamos no quintal. Como sempre, eu fazia bolinhos de barro, subia na mangueira, corria atrás das formigas, brincava com o cachorro (entrava na casinha dele, aliás, e fingia que era cachorrinha também) e corria para todos os lados.
Até que tive um “estalo”: olhei para o varal à minha frente e “vi” um belo trapézio. Não poderia perder a oportunidade da minha vida. Pensei: “É agora!”. Segurei firme na corda e me joguei com todo o estilo de uma legítima trapezista. Só não contava que o varal fosse arrebentar e que a escada, como ímã, me atrairia para ela, quase arrebentando minhas costas. Sujei toda a minha roupa e ainda tive de ouvir ameaças e gargalhadas do meu irmão caçula.
Por sorte, a moça desistiu de contar tudo para minha mãe, sob a condição de que eu arrumasse a cama antes da chegada desta. Desisti de vez de querer interpretar uma artista circense, fosse na televisão ou no cinema.
Atualmente curso Letras. Talvez seja melhor deixar essas aventuras para o romance que estou escrevendo.
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